O spread parou de sinalizar risco. No balcão, o preço ainda se negocia.

Existem dois mercados sob o nome "crédito privado": o papel listado, onde o investidor herda o preço, e a emissão de balcão, onde ele negocia estrutura. A distorção de spread só atinge um dos dois.

Ulisses Nehmi, CEO da Sparta Investimentos, deu uma entrevista ao NeoFeed em que descreve o crédito privado brasileiro como “a maior distorção que já vimos” e “o momento mais perigoso”. O diagnóstico está correto — e é mais específico do que o rótulo sugere.

Porque existem dois mercados operando sob o mesmo nome no Brasil, e eles formam preço de maneira oposta. Um é o papel listado, que se compra na tela. O outro é a emissão de balcão, que se negocia na mesa, cláusula por cláusula. O alerta da Sparta é sobre o primeiro. E é justamente por isso que ele explica tão bem por que o segundo está no melhor momento em anos.

O que exatamente quebrou no mercado listado

A lógica de precificação de crédito é elementar: se o risco de inadimplência sobe, o spread sobre o CDI deveria abrir para compensar o investidor. Nos últimos dois anos aconteceu o inverso. O risco de crédito de parte das emissões se deteriorou e os spreads comprimiram até níveis próximos das mínimas históricas.

O número que encerra o argumento: em julho, a mediana dos spreads das debêntures isentas ficou negativa em 0,02%. Nesse patamar, a única justificativa econômica para o investidor aceitar a remuneração é a isenção tributária do papel. O retorno de crédito, em si, desapareceu do preço.

“Spread de crédito não é termômetro de retorno, é termômetro de risco.”

Ulisses Nehmi, Sparta Investimentos

A frase merece ser lida devagar. Spread baixo não indica crédito bom. Indica que o mercado pode estar cobrando pouco por algo que não entende bem. É sinal de complacência, não de qualidade.

O resto do quadro reforça a leitura. Entre maio e julho, os fundos isentos registraram cerca de R$ 25 bilhões em saques líquidos, sendo R$ 4 bilhões apenas em julho. A Medida Provisória 1303 alterou a tributação dos ativos isentos e mexeu no cálculo de atratividade para o investidor final. E os casos de Raízen e GPA abriram spread nas próprias dívidas sem contaminar o restante do mercado — evidência de que a compressão generalizada é fenômeno de fluxo e apetite, não de reprecificação criteriosa de crédito.

Nehmi chama o resultado de “equilíbrio frágil”: fluxo baixo tanto de captação quanto de resgate, o que deixa o mercado vulnerável a movimentos abruptos de preço caso a direção se inverta. A projeção para os próximos meses é de volatilidade e retorno possivelmente abaixo do CDI durante o ajuste.

Traduzindo para linguagem de estrutura

Quem estrutura operações reconhece imediatamente o desenho: trata-se de um ativo com convexidade negativa.

Não sobrou colchão de spread para absorver choque. O comprador marginal do papel é a pessoa física buscando isenção, através de um veículo que permite resgate em prazo curtíssimo. O ativo é longo, o passivo é curto, e o preço não paga pela diferença. Não é preciso um evento de crédito para machucar o cotista — basta o fluxo virar de direção.

Dois mercados, um nome só

Aqui está o paradigma que o mercado brasileiro insiste em ignorar. “Crédito privado” designa duas coisas que quase não se parecem.

Papel listadoEmissão de balcão
Onde o preço se formaNa tela, pelo fluxo do diaNa mesa, na negociação bilateral
Quem é o comprador marginalPessoa física via fundo aberto, movida a isenção fiscalInstitucional e qualificado, com carrego até o vencimento
O que determina o retornoBeta: fluxo, marcação, tributaçãoAlfa: originação, estrutura, cobrança
O que machucaMarcação a mercado e descasamento de prazoInadimplência, servicing, formalização, falha de trava
O preço paga o risco?Não. Spread no piso históricoSim. Remunera iliquidez, complexidade e trabalho
Dá para desenhar o risco?Não. Só entrar ou não entrarSim. Trava, colateral, reserva, subordinação, gatilho
Erro é reversível?Sim, vende-se no secundárioNão. Trabalha-se a recuperação

No papel listado, o investidor é tomador de preço. Ele herda um spread formado por gente que compra por motivo tributário, e a única decisão disponível é aceitar ou ficar de fora. Quando esse spread vai a zero, não sobra ferramenta: não há cláusula a negociar, garantia a exigir, fluxo a travar.

Na emissão de balcão, o investidor é formador de preço — e de estrutura. O retorno não vem de uma curva de mercado; vem do que se conseguiu negociar: qual conta recebe o fluxo, qual safra sustenta qual nível de subordinação, quem recompra a parcela inadimplente, qual gatilho antecipa a amortização. O prêmio existe porque o trabalho existe.

É por isso que a compressão de spread no listado e o prêmio no balcão não são contraditórios. São o mesmo fenômeno visto de dois lados: o dinheiro que busca isenção e liquidez diária empurrou o preço do papel negociável para um nível que não remunera crédito. Quem não precisa de liquidez diária ficou com o campo livre do outro lado.

O que realmente machuca numa emissão de balcão

Sem otimismo de vendedor: o risco do balcão não está no tamanho da empresa nem na complexidade do lastro. Está em quatro lugares específicos.

  • Falha operacional de repasse. O consignado privado ilustra bem: quando a empresa desconta o valor em folha e não repassa ao credor, a instituição financeira não dispõe de título executável contra ela. Isso não é risco de crédito do trabalhador — é falha de trava, que entra na carteira disfarçada de inadimplência.
  • Assimetria de informação. No mesmo produto, com a mesma regra, existem operações com inadimplência próxima de 10% e outras próximas de 50%. Uma dispersão de 40 pontos percentuais não se explica por macroeconomia. Explica-se por underwriting e disciplina de safra.
  • Qualidade do servicer. Cobrança, cure rate e roll rate determinam se a carteira está curando ou morrendo. Quem não mede não sabe qual dos dois está acontecendo.
  • Iliquidez. No listado o erro se vende. No balcão o erro se carrega por trinta e seis meses.

E o ambiente da economia real não permite fingir conforto. Só nos últimos dias, BMG Foods pediu recuperação judicial com R$ 3,5 bilhões em dívidas e a Havanna entrou em recuperação extrajudicial no Brasil. Nenhuma tese de crédito estruturado que dependa de ciclo favorável sobrevive a esse ambiente.

A diferença é que, no balcão, cada um desses quatro riscos tem um instrumento correspondente. No listado, nenhum tem.

Converter opinião em observável

A leitura preguiçosa da entrevista seria: “o listado não paga, então migre para o balcão”. Um alocador sênior derruba isso em dez segundos, porque é trocar risco de preço por risco de crédito sem provar competência para administrá-lo.

O argumento correto é outro: quando o spread deixa de sinalizar risco, o único sinal que resta é a estrutura da operação. E estrutura só existe onde há negociação — ou seja, no balcão.

O próprio texto que reporta o alerta chega perto disso: quando o spread não reflete mais o risco de forma confiável, a análise cessão a cessão, originador a originador volta a ser o principal instrumento de proteção — mais do que a média de mercado sugere. É a descrição de um trabalho de estruturação, escrita com outras palavras.

O que separa complexidade rentável de complexidade suicida é a capacidade de transformar cada ato de fé em observável verificável. São seis camadas:

CamadaO que converteInstrumento
Dado“A carteira parece boa” em curva de safraBase de originação, dado da fonte pagadora, coorte por vintage
Fluxo“Ele vai pagar” em “o dinheiro passa por aqui”Conta vinculada, domicílio bancário, escrow, cash sweep
Trava“Tenho o direito” em “tenho o título”Registro, cessão fiduciária, notificação, título executável
Colateral“Se der problema, vemos” em cascata definidaGarantia real, aval, seguro, retenção de verbas rescisórias
Governança“Confio no cedente” em “ele sangra primeiro”Subordinação por safra, co-obrigação, recompra, gatilho de amortização
Monitoramento“Depois eu olho” em gatilho que dispara sozinhoRoll rate, cure rate, covenant testado mensalmente

Cada linha retira um pedaço de risco do campo da confiança e o coloca no campo da cláusula. É isso que se compra numa emissão de balcão bem desenhada. Não o papel — a legibilidade do papel.

O paralelo internacional, com a ressalva que importa

O movimento não é brasileiro. Nos Estados Unidos, quando o spread do crédito público comprimiu, o prêmio migrou para o crédito privado e, mais recentemente, para o asset-based finance. E as grandes plataformas não saíram comprando papel: saíram comprando originadores e servicers. Entenderam que a vantagem competitiva estava no controle de dado e de fluxo de caixa, não na seleção de emissor na tela.

A ressalva vem junto. A principal crítica ao crédito privado americano hoje é a opacidade de marcação e a qualidade de receitas reconhecidas sem caixa. Quem opera no balcão sem transparência radical herda essa crítica por inteiro. A defesa é a mesma coisa que o produto: dado auditável, waterfall legível, safra publicada mesmo quando o número desagrada.

A pergunta que fica

O alerta da Sparta é sobre um mercado onde não se pode mais confiar no preço como fonte de informação. Concordamos integralmente — e é exatamente esse o mercado da tela.

Se o preço parou de informar, a informação precisa ser produzida em outro lugar: no dado de originação, no controle de fluxo, na trava que resiste, na subordinação dimensionada por safra, no covenant efetivamente testado. Isso não é uma alternativa de rendimento ao papel listado. É outro ofício, com outra régua e outro tipo de investidor.

A pergunta que todo alocador deveria estar respondendo agora, com número e não com adjetivo: você está comprando a carteira de 10% ou a de 50%? E o que na estrutura permite saber a diferença antes do primeiro vencimento?


Fontes: NeoFeed, “É a maior distorção que já vimos no mercado de crédito”, diz Ulisses Nehmi, da Sparta; FIDC News; Banco Central; Ministério do Trabalho e Emprego.

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